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Mulheres matam mais homens do que homens matam mulheres? O que os números realmente dizem

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Mulheres matam mais homens do que homens matam mulheres? O que os números realmente dizem

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Nas últimas semanas, uma frase voltou a circular com força nas redes: “mais mulheres mataram homens do que homens mataram mulheres”. Ela vem sempre acompanhada de números que parecem precisos, cerca de 3.859 homens mortos por mulheres contra 3.428 mulheres mortas por homens.

O problema é que um desses números não existe. Ele não está escrito em lugar nenhum do anuário. Ele foi calculado por quem divulga a frase. E eu vou te mostrar exatamente como, usando só dados públicos, para você conferir sozinho.

Primeiro, o combinado
Vou trabalhar com os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que é público e acessível a qualquer pessoa. Foi em cima deles que a conta dos 3.859 foi produzida.

Imagine 100 caixas fechadas
Em 2024, cerca de 40 mil homens foram assassinados no Brasil. Em apenas cerca de 8 mil desses casos o boletim de ocorrência identifica quem foi o autor. Essas são as caixas abertas. Nos outros cerca de 32 mil, não se sabe quem matou. Essas são as caixas fechadas.

Nas caixas abertas, de cada 100 homens mortos, cerca de 90 tiveram a vida tirada por outro homem e 5 por uma mulher. Esses 5% representam cerca de 400 homens mortos por mulheres. E mesmo nesses 400 não se sabe o contexto, se foi a companheira ou se foi em um assalto, por exemplo.

Para chegar aos 3.859, fizeram uma coisa simples e errada: pegaram o resultado das caixas abertas e esticaram para as caixas fechadas, como se todas tivessem o mesmo conteúdo. É como abrir 20 de 100 caixas, contar o que tem dentro e afirmar que as outras 80 são idênticas.

Por que isso não se sustenta
Quando uma mulher tira a vida de um homem, normalmente é dentro de casa ou entre pessoas próximas. Esse tipo de caso costuma ter autor conhecido, vira notícia e quase sempre é identificado. Ou seja, já está dentro das caixas abertas.

As caixas fechadas são outra realidade: execução, chacina, briga entre grupos, tiros de desconhecido na rua, muitas vezes várias vítimas de uma vez. Ali é quase sempre homem contra homem. Crime cometido dentro de casa raramente fica sem autoria conhecida. Por isso os 3.859 não se sustentam. Esse número foi imaginado.

A conta honesta
Em 2024, cerca de 3.700 mulheres foram assassinadas no Brasil. Dessas, cerca de 1.500 no contexto de violência doméstica, familiar ou por menosprezo à condição de mulher. São 4 em cada 10 mulheres assassinadas, na maioria das vezes pelas mãos de quem deveria protegê-las. Nesses casos, 97 de cada 100 autores eram homens.

Colocando lado a lado o que de fato tem registro: cerca de 1.500 vítimas de feminicídio, contadas uma a uma, contra cerca de 400 homens mortos por mulheres em qualquer situação. Os 400 são o único número com algum embasamento. Qualquer valor acima disso é suposição.

Ninguém aqui está negando que homens também perdem a vida pelas mãos de mulheres. Isso acontece, é crime e tem que ser punido. Mas, se 4 em cada 10 homens assassinados tivessem perdido a vida dentro de casa pelas mãos da própria companheira, isso seria tratado como emergência nacional. Com as mulheres, é a realidade.

Por que o número importa
O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública já afirmou que é incorreto dizer que as mulheres matam mais do que os homens, e alerta para o risco de contrapor artificialmente a morte de homens ao feminicídio.

Toda morte importa. Mas número fora de contexto desinforma. E essa leitura tem consequência, porque política pública se faz com número. É assim que se decide onde colocar delegacia, abrigo e proteção.

Eu não escrevi isto para dizer no que você tem que acreditar. Escrevi para mostrar de onde sai cada número, para que você mesma possa conferir. O anuário é público.

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